Em l’Autre monde, explora o mundo dos jogos de vídeo, uma temática igualmente abordada em RU There? e Chatroom. Entrevista exclusiva.
Dois filmes, dois filmes fora da competição em Cannes… Os seus filmes são demasiado atípicos para a competição?
Talvez não deva dizer isso porque um realizador deveria desejar estar na Competição, mas acho que isso tem a ver comigo e que tem a ver com o filme, de certa forma. Algo de um pouco atípico, talvez, ou de festivo à maneira do cinema, trémulo também… De qualquer forma, gosto muito deste lugar da sessão da meia-noite, para mim está bom.
Gosta de jogos de vídeo?
Não sou um verdadeiro “gamer”. Mas ao jogar, tive sensações e achei que era interessante explorá-las. Os universos virtuais e as redes sociais dizem muitas coisas sobre os nossos desejos, os nossos medos. Para mim, nos jogos, há uma experimentação da vida, um pouco como no cinema. Aos 20 anos, passava o tempo em salas escuras para ver coisas por vezes sombrias e duras, embora vivesse em Marselha num mundo feliz e luminoso.
Como é que articulou o mundo real e o mundo virtual?
O mundo virtual é realizado em animação, mas está absolutamente integrado na narração. A personagem de Gaspard encontra-se entre dois mundos porque está entre duas mulheres. Enquanto se embrenha numa história, fica perturbado com outra mulher, a qual acha que evolui num jogo em rede, e utiliza este meio para a abordar. É tão natural como um telefonema.
Dominik Moll (Harry, um amigo ao seu dispor) é ao mesmo tempo co-argumentista e conselheiro da encenação. Qual o papel dele nas filmagens?
Essencial. Eu e ele tínhamos um bocado o mesmo lugar nos filmes do outro, mas contribuímos com coisas diferentes. Aqui, onde ele contribui mais, é com o corte, o lugar da câmara. Uma das dificuldades da posição do realizador é estar face a uma equipa que está à espera. O facto de falar abertamente sobre questões de encenação no estúdio, primeiro relaxa-me (risos) e alimenta também o resto da equipa. Com Djibril Glissant, que realizou as sequências de animação, também dialogávamos muito. Por vezes, dizia a mim mesmo: "não sei fazer mais nada senão falar às pessoas", mas isso é já alguma coisa...
Tem vontade de continuar a ser ao mesmo tempo argumentista e realizador?
Sim, tenho um enorme prazer em trabalhar nos projectos dos outros. Quando fazemos os nossos próprios filmes, visitamo-nos a nós mesmos e tocamos forçosamente nos nossos limites. Para mim, na visita dos universos dos outros, existe algo de extremamente enriquecedor e excitante. Nos meus próprios projectos, existe algo de mais doloroso, ainda que eu tenha prazer nisso.
Conversa recolhida por B. de M




























